Poesia e historinhas

  • SAUDADE ANALOGICA

    Essas 11 horas entre nós que não saem da minha cabeça. Você já deve estar completamente desperto, em fluido movimento pelo parque de Jingshan. Os sons se misturam, as flores da estação se abrem lentamente e o ruído da sua respiração. É noite aqui e te escrevo, você dança.

     

    Envio essa carta porque sou nostálgica. O papel permite que receba um pedacinho de mim que por um momento foi nosso, mesmo sem você aqui. E quando minhas palavras entrarem pelos seus olhos e tocarem o seu coração eu já serei outra. Você vai ter que descobrir se ainda sou sua.

     

    Dizem que o tempo foi a maneira que a natureza encontrou para não deixar que tudo acontecesse de uma vez só. Eu sempre gostei disso, da espera. É como se existisse um respeito às distâncias. A tudo que existe entre mim e o outro, e o outro lugar. Tem montanha e tem mar, e tem tanta gente entre nós.

     

    Só que de repente o mundo encolheu. O tempo da presença, do aqui e agora, já não demora. Os segundos são telepáticos e os horizontes das aparências sensíveis são estreitos.

     

    E eu, é claro que me deleito em você instantâneo. Acesso sempre e reconheço os seus hologramas, hyperlink de amor entre São Paulo e Beijing. Sempre grata a telepresença que independe do sol, ou da hora do jantar.

     

    Mas a matéria ainda precisa do espaço.

     

    Chego em 28 dias e te antecipo, meu bem. Estou cheia de saudade analógica.