Poesia e historinhas

  • NARRATIVAS CORPORAIS

    O corpo passa e a vida vai deixando as suas marcas. Toca a cicatriz, piscam os olhos, já não há, mas a expressão continua. Ainda mais quando se trata de amor. Daí o coração fica louco e faz vibrar cada pedacinho nosso. Vai abrindo caminho na memória, e nos pelos. O amor passa e fica.

    O homem sempre fez questão de mostrar que o amor ficou, ou está. Primeiro inventou a tinta e pintou o corpo todo, mas veio a chuva e deixou só a lembrança. Então foi atrás dos metais. Dependurou nas orelhas, no pescoço, enlaçou os dedos... Mas chegava a aventura e do ouro se esquecia.

    Foi quando apareceu um marinheiro. O amor que existia nele era muito lindo e não podia sair nunca. Que nem as marquinhas em volta da boca, que ficam mais fundas a cada sorriso. Tinha que resistir ao mar, às aventuras, ao tempo, aos outros amores e a tudo que a vida oferece. Então teve uma idéia. Juntou a tinta e o metal, e coloriu a pele. Coloriu tão fundo que o amor ficou, estampado, e nunca mais saiu.

    Dessa vontade autêntica de levar o coração na pele é que surgiu a tatuagem. Desde então a gente continua projetando o espírito na matéria, contando quem somos nessa linguagem que pode tomar tantas formas. Mas o amor, foi o amor que começou tudo.