Poesia e historinhas

  • DEJUMATOS

    Comecei a fotografar por uma necessidade de me expressar. Eu queria saber mais sobre mim e sobre o mundo. Queria ampliar as minhas possibilidades e me colocar em situações em que eu me sentisse numa aventura. Se a mente é mágica, seria o sentir-se vivo uma questão de perspectiva? Para onde - e para quem eu estava olhando - e de que forma? Será que por outro ângulo eu não veria a mim mesma e à minha própria realidade de outra maneira?
    Foi assim que comecei a me interessar por retratos. No começo eu colocava o indivíduo no espaço, numa posição que interferisse diretamente na leitura daquele lugar. 
    [ IMAGEM 1 ]
    Depois senti que eu queria me aproximar ainda mais daquele recorte humano. Fui me acercando mais e mais até chegar perto o suficiente pra enxergar o que tem dentro de um olhar. 
    A fotografia pra mim é um encontro. Aquele breve momento em que os olhos trocam em silêncio e algo se revela. É uma escolha de se mostrar daquela maneira e não de muitas outras. O fotografo também escolhe, direciona a imagem para que o diálogo seja verdadeiro.
    [ IMAGEM 1.2 ] 
    Com o tempo fui entendendo que existem muitas forma de orientar um retrato. Existem os fatores subjetivos, como a conexão interpessoal entre o fotógrafo e o fotografado. Conduzir a situação para que o “clima” esteja de acordo com o objetivo da imagem. Tensão ou relaxamento? Extroversão ou Introspecção? A sensação e o sentimento gerado naquele espaço/tempo.
    [ IMAGEM 2 ]
    Os fatores objetivos também interferem muito. O primeiro deles, e talvez pra mim o mais importante, é o direcionamento corporal. Eu gosto muito de retratos documentais, pela força e verdade que eles trazem. Mas o fato é que pessoas “comuns” não estão acostumadas a estar na frente da câmera. Mais do que isso, as pessoas em geral não tem o que chamam de “consciência corporal”, esse auto-localizar-se que entende o próprio corpo no espaço. E o corpo fala. Como a fotografia não tem som, a imagem tem que passar toda a mensagem. Por isso é importante orientar o corpo do fotografado, esclarecer a comunicação não verbal. O que significa, dentro da nossa cultura, o cruzar de braços ou uma sobrancelha arqueada? O sujeito interage consigo ou com o que está em volta?
    [ IMAGEM 3 ]
    Os olhos são parte dessa expressão e do corpo é a parte que eu mais gosto. As vezes, inclusive, contradizem o corpo e se expressam de forma independente. O corpo pode ser franzino, estar tenso ou debilitado, mas o espírito não - dá pra ver isso dentro de um olhar. Por isso gosto muito quando o fotografado olha diretamente para a câmera, ou para mim. O foco crava naquela janela de expressão, naquele portal de verdade. Eu quero que ele me enxergue, e eu me mostro. Mas a única forma de me ver é se mostrando também. A fotografia, de novo, é um encontro. 
    [ IMAGEM 4 ]
    Outros fatores objetivos seriam o que chamamos da “arte”, a atmosfera material que envolve o fotografado. Onde está essa pessoa, que roupas ela está usando, quais são as cores? Tudo isso vai interferir diretamente no resultado.
    [ IMAGEM 5 ]
    Os fatores técnicos fecham a equação do retrato. É aí que entra a habilidade matemática do fotógrafo. Qual é a luz, ou onde está a luz - e a sombra? Iluminação natural ou artificial? A escolha da lente e do ângulo também interferem na materialização daquela visão. Nos retratos abaixo eu usei uma lente Canon EF 16-35mm. A grande angular causa uma certa distorção e traz esse efeito “muito perto e na sua cara”. É como se a pessoa estivesse se debruçando sobre mim com tudo o que ela tem dentro de si.
    [ IMAGEM 6 E 7 ]
    Fotografar pessoas me levou a muitos lugares e me permitiu escutar diversas histórias. Tive a oportunidade de participar da narrativa única de seres humanos incrivelmente complexos e interessantes que cruzaram o meu caminho. O fotografo ele escuta, tanto o que é verbalizado quanto o que é mistério. Para mim, traduzir o silêncio em luz é o seu ofício. Primeiro ele escuta, depois ele enxerga. Mas só quando existe diálogo é que a foto se revela. 
    Com a fotografia aprendi a ser espelho e a me ver nos olhos dos outros. Aprendi a construir o meu mundo dentro de uma perspectiva que faz sentido pra mim. O meu auto-retrato muda com o tempo, e minha expressão se transforma conforme me descubro. É essa vontade de troca que motiva a seguir aprendendo. 
    [ IMAGEM 8 ]