Poesia e historinhas

  • O CORAÇÃO É DO TAMANHO DE UM DEDAL

    Quando eu era uma criança triste eu sabia tudo de amor. Se me pedissem eu contaria uma história inteira. Mas o meu quarto cheio de brinquedos não estava interessado e a sala continuava impecável.

     

    O que eu mais queria era que o amor me salvasse.

     

    Certa vez me levaram numa viagem. Eu gostava de viajar porque era um presente (dava pra fingir que me amavam). Lá entrei numa loja estranha de montar ursos. Nas paredes tinham bichinhos de todos os tipos… girafas, gatinhos, dinossauros. Eu quis o coelhinho porque ele era triste.

     

    Entreguei a carcaça à moça que o encheu de pelúcia. Me deu um coração do tamanho de um dedal e pediu que o colocasse contra o peito. A gente girou três vezes, ela tocou o meu nariz e disse – faça um desejo! Eu pedi um amor de verdade.

     

    Aos quinze cansei de ser triste. Botei um piercing ao som de Get me away from here I’m dying, beijei de língua e dirigi uma Van.

     

    Aos dezesseis conheci o Acir, o menino editor. A revista dele, a Burns&Burns, era internacional. Com a incrível tiragem de 40 exemplares conseguia cobrir a classe toda. Eu quis ilustrar a revista do Acir.

     

    Então desenhei uma sequencia inteira de orcs e minotauros e ele gostou muito. Eu tinha dado um presente pra ele (quem sabe ele fingisse que me amava).

     

    Todo sábado eu sentia uma saudade imensa do Acir.

     

    Aos dezessete eu estava contentíssima porque tinha um namorado. Quando o Acir viajava ele esquecia de mim e eu chorava. Depois me trazia uma concha e me ensinava a ser mais leve. Foi com ele que aprendi as palavras sibipiruna, merlot, ombrelone e camarãozinho. Chegou um dia me endireitando a coluna e reforçou que a postura é a alma do negócio. O Acir era um menino muito sabido.

     

    Passaram-se dez anos e a gente comemorou ontem as nossas bodas de Zinco. Nos beijamos nas sobrancelhas, nos cantinhos da boca, nos olhos.

     

    É pro Acir que choro as pitangas. E quando estou jogada no sofá, meio de mal de tudo, ele me abraça e corre os dedos pelos meus ombros. Ele chama isso de carinho de cosquinha e eu adoro. Sempre me liga pra contar de um tombo disfarçado ou de um filme que eu não posso assistir de jeito nenhum ou não dormirei para sempre.

     

    Das estrelas na língua, quando elas chegam dos lugares mais inesperados, também sei. E é ele quem diz só de olhar se estou encantada, boba alegre ou desleixada.

     

    O Acir não é mais meu namorado. O Acir é meu primeiro amor.

  • A SEQUOIA DE MIL ANOS

    Quando ainda muito menina, de traços desajeitados e cabelo em fúria, conheci um jovem senhor de mil anos. Estava a seguir o canto de um bem-te-vi quando tropecei naquela figura imponente. Confesso que me senti imediatamente atraída por sua coluna ereta, como se estivesse sempre a contar estrelas, e por seus pés resolvidos, fincados altivos em terra sólida.

     
    Atento ao mesmo som que promovera aquele encontro, demorou para que notasse a minha presença. Quando enfim deitou seus olhos nos meus, vi. E já era certo que jamais me afastaria daquele semblante.

     
    Sentei-me em terra vermelha e lhe perguntei o que fazia um homem assim, de exame aguçado, prestar atenção a um passarinho tão comum. Ele sorriu, e respondeu docemente que apenas estava a escutar um dos primeiros sons do amanhecer. E não disse mais nada.

     
    Desde que o conheci não tardei a prestá-lo visitas frequentes. Descobri que morava ao lado de um regato e que bastava seguir uma trilha vadia para adentrar em terras marcadas de silêncio seu. Logo me dei conta de que era chegado a um certo falcão peregrino, que de cortês se deixa notar. Passei tardes inteiras a observar as conversas que ministravam calados.

     
    As horas passavam arrastadas na sua presença, e quando as cores se cansavam de serem tão vivas e finalmente se apagavam, sempre havia algo de terno a ser recordado.

     
    Certo dia ouvi um chamado estranho, desses que não se sabe ao certo de onde vem. Caminhei taciturna até a sua morada e lhe contei que desejava partir. Apenas o vento soprou em resposta.

     
    Passaram-se três anos desde que me lancei ao mundo. Escalei montanhas que me guiaram até bosques ensolarados e desbravei mulheres que dividiram comigo seus mansos lençóis. Decerto que meu coração provou da água de córregos enlameados, assim como de fruta de pés perdidos atrás de véus antes nunca violados.

     
    Escrevia a cada anoitecer àquele que se mostrou disposto a me acolher em braços tão firmes. Replicava em cartas curtas, tingidas de letrinhas miúdas e difíceis de ler. Dizia sempre que estava bem. Por vezes me contava como o sol andava mesquinho no inverno, ou mencionava um presente que alguma raposa boa deixara em sua varanda.

     
    De todos os anciões que encontrei pelo caminho, não há nenhum que eu tenha amado tanto. Hoje estou novamente recostada sobre suas largas costas. Somente ele para me alimentar de gesto, de toque e de olhar.

  • SOBRE A INSÔNIA E OUTROS DELÍRIOS DE LIBERTAÇÃO

    Um pássaro nasceu numa família de corredores. Desde cedo ensinaram-lhe a mover-se rapidamente, com as pernas em máxima performance. Ele corria, saltava e treinava todos os dias.


    Aos domingos, dia de maratona, o pai gritava da arquibancada. Depois contava histórias de seus tempos áureos. Um dia – dizia, você acumulará grandes prêmios. Será grande como eu, ágil como seu avô, e os corredores antes dele. O pássaro assentia em silencio. Nunca fora um corredor apaixonado e tinha muito medo do fracasso.


    Numa noite clara saiu escondido. Em vez de correr, saltitou até a encosta. Às vezes fazia isso, sem que ninguém notasse. Então deixou-se guiar pelo reflexo da lua. A luz abaixo vinha de um riacho que havia transbordado. E quis vê-lo de perto.


    Abriu as asas. Que delicia era poder abrir as asas. Mas eram tão pequenas as pobres, franzinas até.. Levantou voo baixo e, vagarosamente, vencia a distância. Como era lindo voar. Ah, se ele pudesse apenas voar e nunca mais tocar o chão com suas pernas já tão bem treinadas. Se ele pudesse…

     

    Se ele soubesse que podia é certo que o teria feito.
    As asas logo se cansaram, então caminhou o restante do caminho. Chegando ao espelho d’agua, viu sua realidade. Já não e nunca mais um pássaro. A ave, privada de si, era um avestruz.

  • 10 MANEIRAS DE F* COM O AMOR

    Um guia resumido de como continuar solteiro para o resto da vida.

    1. Procure nos lugares errados. Isso mesmo, continue a frequentar todos os bares e festas em que você sabe que encontrará as mesmas pessoas de sempre. E quando chegar ao evento, certifique-se de que só terá olhos para as pessoas que teve um caso no passado ou gostaria de ter tido. No máximo se interesse pelos acompanhantes dessas mesmas pessoas. Continue assim, dentro do circuito Augusta/ Centro sábado após sábado, e continuará se lamentando domingo após domingo pelos próximos anos.
    2. Procure pelas pessoas erradas. Mesmo que esteja no lugar errado existe alguma chance de encontrar o que você procura, certo? Errado. Porque mesmo que ela esteja lá você não irá notá-la. Talvez você até esteja no lugar certo, mas continue a utilizar aquele mesmo filtro mesquinho que já se provou um fiasco por tantas vezes. Não adianta se infiltrar e descobrir tudo a respeito daquele cara de atitude agressiva e cool, vivendo um óbvio momento pegador, se o que você quer mesmo é um amor para recordar.
    3. Julgue, julgue, julgue. Supondo que por acaso encontre alguém legal, lembre-se de julgá-lo até não restar mais nada. Julgue o seu nome, seu estilo, seu gosto musical, sua postura, seus trejeitos, seu tom de voz, suas marcas de expressão, sua risada, sua presença digital, seu bairro, sua casa, sua cama, seu gato. Julgue até não poder mais e depois diga que não rolou porque não era a sua cara.
    4. Jogue pelos extremos I. Seja indiferente, seja alheio, seja distante. Faça o papel de inatingível e impenetrável.
    5. Jogue pelos extremos II. Seja super disponível, maleável e praticamente implore por amor.
    6. Faça o psicopata das redes sociais. Adicione seu alvo em todas as redes sociais possíveis antes de inteirar 24 horas que se conheceram. De preferência faça contato em todas elas, mandando mensagens “subliminares” a respeito do seu interesse legítimo e irreversível. Confirme todos os eventos em que há alguma chance de vocês se cruzarem e curta tudo o que puder.
    7. Destaque os pontos que vocês não têm em comum. Defenda o POP com todas as suas forças e insista no talento e beleza de Beyoncé. E cante algum trechinho para ressaltar a sua afinidade. Mesmo sabendo que POP é um assunto abominável e desprezível para o seu alvo, que ama rock das antigas.
    8. Use drogas pesadas logo de cara. Mostre o seu lado mais sombrio e diga coisas que não fazem sentido ou que dificilmente encontrarão resposta ou empatia. Insista naquilo que irá te fazer acordar com uma bela ressaca moral e que te deixaria de cama por dias se não tivesse que trabalhar na manhã seguinte. Ah, e não se esqueça de tentar fazer sexo com sintomas de abstinência e/ou excesso de álcool.
    9. Conte absolutamente tudo a seu respeito. Aproveite o primeiro, o segundo e o terceiro encontro para contar suas inspirações, seus sonhos, seus maiores medos, seus planos para o próximo mês, para o próximo ano, para os próximos cinco anos e todas as dificuldades que está enfrentando. Além de como a sua família está reagindo, é claro.
    10. Seja grosseiro. Sempre interrompa o assunto e insista no novo tema, que visivelmente ninguém se interessa. Seja indiferente aos amigos do seu alvo. Seja arrogante com o garçom, com o flanelinha, com a hostess, com todo mundo que puder. Conte muitas vantagens ou simplesmente seja mau.

  • COM O TEMPO A GENTE APRENDE

    30 lições que só o tempo pode ensinar

    Com o tempo a gente aprende que os amigos do seu namorado são os amigos do seu namorado;
    Com o tempo a gente aprende que estar em casa é diferente de se sentir em casa;
    Com o tempo a gente aprende que trair pra terminar dá mais dor de cabeça do que simplesmente dizer “eu não te amo mais”;
    Com o tempo a gente aprende que trocar o dia pela noite nos faz sentir menos inúteis e solitários;
    Com o tempo a gente aprende que não adianta insistir em relacionamentos em que não existe afinidade;
    Com o tempo a gente aprende que, em certos casos, ser solícito é o mesmo que ser trouxa;
    Com o tempo a gente aprende que os amigos que foram verdadeiros nunca serão esquecidos;
    Com o tempo a gente aprende que a família é a coisa mais importante que se tem;
    Com o tempo a gente aprende que existem filhos que nunca foram adotados;
    Com o tempo a gente aprende que ter irmãos é a melhor coisa que poderia ter acontecido;
    Com o tempo a gente aprende que ser leal é diferente de ser fiel;
    Com o tempo a gente aprende que ter amor próprio pode doer mais do que abrir mão do orgulho;
    Com o tempo a gente aprende que existem vitórias que não valem a energia que consomem;
    Com o tempo a gente aprende que são raras as pessoas que vibram por e com você;
    Com o tempo a gente aprende que o devasso freqüentemente é vítima de seus excessos;
    Com o tempo a gente aprende que nem sempre é preciso vivenciar para entender;
    Com o tempo a gente aprende que pensar antes de falar é mais difícil do que parece;
    Com o tempo a gente aprende que é muito mais fácil subir do que se manter no topo;
    Com o tempo a gente aprende que beleza natural raramente existe;
    Com o tempo a gente aprende que raiva é ruim pra quem sente;
    Com o tempo a gente aprende que é necessário certo amadurecimento para se acreditar em Deus;
    Com o tempo a gente aprende que é preciso insistência para encontrar o próprio estilo;
    Com o tempo a gente aprende que carisma é mesmo uma coisa nata;
    Com o tempo a gente aprende que às vezes somos obrigados a agradar mesmo contra a nossa vontade;
    Com o tempo a gente aprende que anotar é preciso;
    Com o tempo a gente aprende que ter bens e não usufruí-los é o mesmo que não tê-los;
    Com o tempo a gente aprende que, em certas ocasiões, ter personalidade é o mesmo que ser radical;
    Com o tempo a gente aprende que a infelicidade é maior quando vem de onde não esperamos;
    Com o tempo a gente aprende que não reagir é dar brecha a outros ataques;
    Com o tempo a gente aprende que assumir que já se viu tudo é a pior das tolices.

  • MISTERINHO

    Quero a menina à moda antiga, que me sorria com os olhos e que apareça às vezes com flores nos cabelos. Aquela menina que assobia junto ao vento à procura de vaga-lumes. Quero a menina que dança, mesmo sem jeito, que saiba canções antigas e que se lembre de velhos ditados. Quero a menina que conta estrelas. A menina que vê beleza nas coisas simples e se interessa pelos mistérios do mundo. Quero a menina que me transborde, que me acorde com beijos e me nine, já de noitinha, em braços cansados. Que goste de vestidos e se encante em tirá-los. Quero a menina que sabe que é preciso ser mulher.

  • 5 LENDAS QUE FIZERAM MINHA INFÂNCIA MÁGICA

    No tempo em que meus pais gritavam da janela, mandando eu entrar por causa do sereno, ouvia diversas histórias que às vezes me deixavam maravilhada, horrorizada ou perplexa. Sem essas 5 lendas, e um monte doutras que fui esquecendo, minha infância teria tido bem menos gosto – e menos mágica!

    1. Todo rodamoinho abriga um saci. Os rodamoinhos só existem porque dentro deles vive um saci girando. E para capturar essa criaturinha é muito simples, basta juntar uma peneira, uma garrava de rolha e ir atrás de um pé-de-vento. Você tem que ser muito ligeiro e jogar a peneira justo quando o saci estiver passando. Depois é só torcer para ele não escapar, nem da peneira, nem da passagem pra dentro da garrafa. É muito importante não esquecer de riscar uma cruzinha na rolha, porque o que prende o saci na garrafa não é a rolha e sim a cruzinha riscada nela. Lembre-se também de roubar o seu chapéu porque se não ele continua invisível. O saci vai ficar muito bravo, é claro, mas vai te conceder muitos desejos se conseguir capturá-lo. Passei muitas tardes caçando saci.

    2. Promessa é dívida. Promessa é uma coisa muito séria, seríssima e é justamente por isso que existem técnicas para que sejam seladas. A primeira delas é unindo os mindinhos. Se escolher esse método provavelmente significa que está se comprometendo com algo simples de cumprir. A segunda é pela tradicional cuspida na mão, depois basta dar um aperto bem forte. Agora se a coisa for bruta mesmo, dessas que não podem ser quebradas por nada e nem por Deus, a única maneira é pelo pacto de sangue. É preciso fazer um furinho no dedo com uma faca bem afiada e esperar que três gotas caiam no chão. Depois é só juntar os dedos e repetir a promessa por mais três vezes. Se você não cumprir uma dessas é capaz até de morrer.

    3. A Fada do Dente. Toda criança sabe que ela tem uma mina de ouro na boca e que os prêmios vêm em pequenas prestações. Cada vez que ia cair um dente de leite era uma alegria, eu ficava balançando ele na boca, tentando antecipar a minha fortuna. A fada do dente é um ser muito exigente, por isso eu tinha que ter certeza de que o dente se encontrava nas melhores condições. Se tivesse alguma cárie ou não fosse lá muito branquinho é claro que valeria menos. Depois de ter certeza de que tudo estava bem com o dentinho era só correr para o quarto e guardá-lo debaixo do travesseiro. Agora era só esperar a noite passar pra encontrar o presente. Sempre me sentia muito rica depois dessas pequenas trocas, e nunca gastava o dinheiro com guloseimas. Eu sabia que a fada não gostaria nada e talvez nem aparecesse da próxima vez.

    4. Os túneis. Os túneis sempre foram muito emocionantes pra mim. Primeiro porque se você conseguisse ficar sem respirar desde a entrada até o final tinha direito a um pedido. Quanto maior o túnel mais complexo podia ser o pedido. A segunda lenda me deixava apavorada, se o túnel cruzasse um arco-íris, já que sempre podia estar chovendo no topo da montanha, todo mundo que estava dentro do carro mudaria de sexo. Já imaginou, entrar no túnel menina e sair menino? Muitas vezes, depois de ter ficado sem respirar pelo túnel, eu pedia pra que todo mundo continuasse como era, sem essa coisa de ter que virar garoto.

    5. Todas as coisinhas do mato que trazem boa sorte. Coruja no muro de noitinha, mariposa na porta de entrada, lagartixa atrás do quadro, grilos e louva-a-deus verdes, caixa de marimbondo no telhado, cigarra cantando, semente de romã, cocô de passarinho, rosas vermelhas ganhadas, cristal de rio, besouro preto, pena amarela (coloque dentro do travesseiro se encontrar uma), incenso de canela e sapos são sinais de ótima sorte.

  • ADULTO E SEM AMIGOS

    Quando era criança me perguntava onde estavam os amigos dos meus pais. Os amigos de verdade mesmo, e não toda aquela gente que vinha nos cumprimentar enquanto estávamos almoçando em algum restaurante típico da cidade. Chegavam com a mesma história de que eram parceiros de toda a vida e iam logo engatando alguma conversa sobre negócios ou política. Sempre achei esses relacionamentos muito estranhos, porque esses muitos amigos nunca iam nos visitar, nunca ligavam e nunca mais apareciam. Não até que a gente se encontrasse de novo por acaso.

     

    A princípio eu achei que era uma coisa da minha família. Meus pais devem ser muito estranhos ou muito chatos, pensava. Eles não devem saber o quão maravilhoso é poder contar com alguém que não compartilha do seu próprio sangue! Fiquei ainda mais abismada quando descobri que esse deslocamento dos meus velhos se repetia com os pais dos meus amigos.

     

    Segui com esse desconforto por muito tempo, até que me esqueci dele. Fui viver meus descaminhos adolescentes longe da minha cidade natal e mal tive tempo de considerar a solidão daqueles adultos, já que estava eu mesma muito entretida com a minha própria galera. Hoje, com vinte e cinco anos e ainda longe de ter me estabelecido, começo a repensar o jeito como os trintões, quarentões e cinquentões lidam com seus ciclos sociais. Se antes considerava aquilo tudo uma tragédia, causada pelo trabalho, pela família ou pelo descaso daquela “gente velha”, pondero  sobre outras alternativas.

     

    Eu mesma já não circulo mais entre tanta gente. Parece que essa coisa de quantidade vai perdendo o sentido. Quando se é jovem, existe uma urgência por aprovação, por compartilhar, uma busca desesperada para constatar a relevância e distinção da sua existência. Os anos acalmam o coração e essas angústias vão calando e calando… Chega uma hora que parece que a gente precisa mesmo é de tempo para si, que se torna precioso demais para se jogar fora em mesas de bar.

     

    Talvez eu me torne mais uma adulta sem amigos, fechada entre poucos parentes, sendo abordada por velhos conhecidos em restaurantes típicos da cidade. Ou quem sabe eu acabe encontrando só aqueles que foram muito queridos, mas que agora estão longe. Marcaremos férias juntos, mandaremos temperar um carneiro e tomaremos drinques em nossas piscinas privadas – uma vez por ano. Serei então uma versão mais moderna dos meus pais. E talvez seja esse o ciclo natural das coisas, com os meus filhos se fazendo as mesmas perguntas… Como se eu não tivesse vivido, como se eu não tivesse trocado com pessoas incríveis, flamejantes, inspiradoras ou simplesmente boas. Vai ver chegará a hora que precisarei somente dos meus desafios empreededores, dos meus livros e do meu cachorro correndo atrás de algum passarinho no jardim. E lá na frente a vida mudará tanto ao ponto de me mudar também.

     

    Não sei, mas uma pontinha de mim deseja firme e todos os dias que eu consiga preservar os que me marcaram a alma, e quem sabe até a pele com rebeldia de tatuagem. Por mais que ser adulto possa significar algum tipo de libertação em relação às pessoas, quero conseguir me manter acorrentada a uns bons e velhos amigos. Assim, por opção.